
Fosse como fosse, uma confusão aparente nunca poderia ter gerado um trauma. Misturam-se as palavras, confundem-se os sentimentos, de repente, lá está: instalado o Caos. Na verdade, pergunto sempre se o Caos instala-se ou se é condição pertinente,
natura naturans. O velho Hesíodo, pastor de povos e rebanhos, responde cansado de seu Olimpo Teogonico: meu filho, meu filho, no princípio era o Caos e há-devir! Aqui o príncipio sem devir, não aceita as admoestações do tempo, que bate, rompe, gira, caduca. Mesmo os gregos, ou melhor, os gregos sim!, sabiam que Tempo de categoria Una é só uma maneira de condensar. Condensa-se o Caos para produzir um abismo. Lá o tempo, cá o Homem. Mas, afinal, a Mitologia contou algo distinto do que vemos. Parecia, segundo os relatos, que era Zeus Toante, o Cronida alti-regente quem havia saído vencedor e triunfante de toda gesta pré-olimpíca. Todavia, vemos ainda que o domínio pleno de um Cronos multi-facetado e pluri-ardiloso acabou por reduzir os poderes daquele que porta a égide.
Em Cronos trans-formado, Primavera é Kairos. Um que outro contém. Triunfo da Porta dos Deus, onde o eixo ascensional parece prostrar-se diante de nossos olhos fatigados. Hora oportuna e divina de presen(ci)-tear (tecendo a iluminura do mundo) os milagrosos acontecimentos do Divino. Olhamos aqui o Caos como uma mandala cíclica, pondo em movimento os rastros do mundo e perpetuando o movimento flutuante da Roda. E para quem só quer ver confusão e estrago, ou o âmago amargo do trauma, só resta dizer que sempre nos será bem-vinda a arte da celebração do Tempo e da Vida.
Sem confusão, e mais confusos que nunca, ainda estamos no Samsara de Sólon: "«Sólon, Sólon, vós, os gregos, sois eternas crianças; velho, um grego não o pode ser.»
«Jovens, vós o sois todos de alma, pois não tendes nela qualquer opinião transmitida oralmente desde a antiguidade, nem nenhum saber encanecido pelo tempo».
Ps: A imagem é, logicamente, de Blake.