16/10/09

Canção do cavalo galopante do yogi


Prostro-me aos pés de Marpa, o tradutor!
No eremitério da montanha, que é o meu corpo,
No templo do meu peito,
No topo do triângulo do meu coração,
O cavalo, que é a minha mente, voa como o vento.
Se eu tentar capturá-lo, com que laço irei pegá-lo?
Se eu tentar amarrá-lo, em que estaca irei amarrá-lo?
Se ele estiver com fome, qual alimento darei a ele?
Se ele estiver com sede, o que misturarei com sua água?
Se ele estiver com frio, entre quais paredes irei abrigá-lo?
Se eu capturá-lo, será com o laço do incondicionado.
Se eu amarrá-lo, será na estaca da meditação profunda.
Se ele estiver com fome, vou alimentá-lo com os preceitos do mestre.
Se ele estiver com sede, vou dar a água do fluxo perpétuo da atenção.
Se ele estiver com frio, vou abrigá-lo entre as paredes da vacuidade.
Como sela e freio, usarei os meios hábeis e a sabedoria.
Vou equipá-lo com a forte cilha da imortalidade.
Vou segurar as rédeas da energia que sustenta a vida.
O filho da consciência irá cavalgá-lo.
Como elmo, ele usará a atitude iluminada do Mahayana.
Sua capa será feita com o ouvir, o questionar e o meditar.
Em suas costas, ele usará o escudo da paciência.
Ele segurará a lança da visão perfeita.
Ao seu lado será amarrada a espada do conhecimento.
Se a flecha de sua consciência-armazém se curvar,
Ele a endireitará sem ódio.
Ele colocará as penas das quatro atitudes ilimitadas.
Ele colocará a ponta afiada da sabedoria.
No arco da vacuidade dos fenômenos,
Ele ajustará a profunda curvatura dos compassivos meios hábeis.
Medindo a infinidade da não-dualidade,
Ele vai atirar suas flechas pelo mundo.
Aqueles que ele vai atacar são os fiéis.
Aquele que ele vai matar é o seu apego ao eu.
E assim, como inimigo, ele vai subjugar o desejo e a delusão.
Como amigo, ele protegerá os seres sencientes dos seis reinos.
Se ele galopar, será nas planícies da grande felicidade.
Se ele persistir, atingirá o nível do Buddha vitorioso.
Indo para trás, ele corta a raiz do samsara.
Indo para frente, ele alcança a elevada terra do estado búddhico.
Montando tal cavalo, ele atinge a mais elevada iluminação.
Você pode comparar sua felicidade com isto?
Eu não desejo a felicidade mundana.




Milarepa

05/05/09

Tat Twan Asi


Do nada, em nada, se verte o viço do verso. A palavra degenerada é concretamente a abstração, o hiper-relaxamento do gênero. Vem (vir e viemos) as formas, todas prontas, em exércitos de casulos, cápsulas, claustros, camadas e conceitos ; daí a derivação do termo crueldade de Artaud: desnudamento completo com a força da semente original. Mesmo poder de morte, vida, cio, som. Aqui sim um irromper-se necessário para frutificar em palavra-árvore, verbo-fruto. O verbo, erupção do corpo, é o filho incompreendido, ainda que sem necessitar de defesa, e malogrado. Porém, observa atentamente a pedra de escândalo e com ela edifica e medica. Sanar com arte, habilmente verter-se em vertigem do abismo. No olhar, tão teme e apenas salta pois não há como fracassar: tu és isso.

25/04/09

Indústria


Um excesso
uma indústria, no fio faca moderna,
um conceito rarafeito no verso dissedente
sobressai na linha
do trem do futuro
maduro homem de lata,
de pó, de ferro
extorquido na matéria do aço escuro.
Façai
e ao refazer a traça que comeu
o último juízo de Deus: fúnebre.
Finis Gloriae Mundi.



video

24/04/09

Conselhos de Pound


Em um relance rápido, valei-me patrono Mercurial, parece que a inabilidade com as palavras é dos males o mais perdoável para aqueles que escrevem. Constatação hedionda. Se um músico desafinar ou uma bailarina tombar abruptamente... bem, todo mundo percebe. No entanto, os poetas caducos que estão repetindo os jargões, dissimulando a mediocridade com termos belos - "vida", "amar tanto assim", "segundo sol" - esses poetas, dizia eu, não são condenados com tanto rigor. Talvez porque as letras comportem algo de tão subjetivo - e seu caráter essencialmente simbólico dá prova disso - que pega até mal dizer diretamente: " você escreve mal pra cacete!" sem ter que ouvir a lamúria melodramática e pseudo-humanística de que aquela é a expressão do que brota do seu " interior" 1. Na poesia todo mundo enfia - verbo bem adequado - o dedo e mexe pra lá e pra cá sem se dar ao luxo essencial de transitar no universo literário e revisitar os mestres para retificar o verbo de suas excrescências. Ezra Pound - grande ouvires das palavras- dá conselhos muito úteis:

“ - Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como "dim lands of peace" (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto.Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado. Receie as abstrações.

- Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã.


- Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano.


- Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la.
Não permita que a palavra “influência” signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas “cinzentas como pombas”, ou então “lívidas como pérolas”, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum”.

1- É o que me dá segurança para inferir que "interior" é uma paisagem bucólica - ainda que interna - totalmente insalubre, sem iluminação, saneamento básico e de dificil acesso.

15/09/08

kairos...


Fosse como fosse, uma confusão aparente nunca poderia ter gerado um trauma. Misturam-se as palavras, confundem-se os sentimentos, de repente, lá está: instalado o Caos. Na verdade, pergunto sempre se o Caos instala-se ou se é condição pertinente, natura naturans. O velho Hesíodo, pastor de povos e rebanhos, responde cansado de seu Olimpo Teogonico: meu filho, meu filho, no princípio era o Caos e há-devir! Aqui o príncipio sem devir, não aceita as admoestações do tempo, que bate, rompe, gira, caduca. Mesmo os gregos, ou melhor, os gregos sim!, sabiam que Tempo de categoria Una é só uma maneira de condensar. Condensa-se o Caos para produzir um abismo. Lá o tempo, cá o Homem. Mas, afinal, a Mitologia contou algo distinto do que vemos. Parecia, segundo os relatos, que era Zeus Toante, o Cronida alti-regente quem havia saído vencedor e triunfante de toda gesta pré-olimpíca. Todavia, vemos ainda que o domínio pleno de um Cronos multi-facetado e pluri-ardiloso acabou por reduzir os poderes daquele que porta a égide.
Em Cronos trans-formado, Primavera é Kairos. Um que outro contém. Triunfo da Porta dos Deus, onde o eixo ascensional parece prostrar-se diante de nossos olhos fatigados. Hora oportuna e divina de presen(ci)-tear (tecendo a iluminura do mundo) os milagrosos acontecimentos do Divino. Olhamos aqui o Caos como uma mandala cíclica, pondo em movimento os rastros do mundo e perpetuando o movimento flutuante da Roda. E para quem só quer ver confusão e estrago, ou o âmago amargo do trauma, só resta dizer que sempre nos será bem-vinda a arte da celebração do Tempo e da Vida.
Sem confusão, e mais confusos que nunca, ainda estamos no Samsara de Sólon: "«Sólon, Sólon, vós, os gregos, sois eternas crianças; velho, um grego não o pode ser.»
«Jovens, vós o sois todos de alma, pois não tendes nela qualquer opinião transmitida oralmente desde a antiguidade, nem nenhum saber encanecido pelo tempo».

Ps: A imagem é, logicamente, de Blake.

17/01/08

aromas e amoras


Na volta de minhas profícuas férias.... ou melhor, no nada auspicioso retorno ao mundo, mundo cão sebastião, cá estou eu profuseando-me (uát) de idéias novas que ficaram suspensas por muito tempo. Todas aquelas anotações inúteis, pensamento inacabados, imprecisos, intra-ligentes, correm ligeiramente pelas mãos e braços do meu verso devir. Digo verso devir, porque a palavra também, como tudo, está apenas fluindo para o grande oceano das verdades do verbo. Lá ,sim, que aposto inesperado, operam-se gigantescas meta-formoses num canto vindouro, pulam os verbos, saltam os sinônimos dos cinamomos, como diria Alphonsus, e a palavra estática, aquela que foi carimbada pelo seleiro que nos deu licença para avoar – do verbo avoado, pretérito perfeccionista, bom.. eu dizia que a palavra morta ficará de castigo no canto da sala com chapéu de burro feito de cartolina. Quando pego-me pensando, e o pensamento, sabe você, é coisa gatuna, na observação de Schopenhauer para que evitemos essas observações introjetadas no meio de algo inteligente, começo a cogitar as hipóteses das causas que me levam à fazer isso. A primeira delas, levantada pelo próprio Wolverine Germano, é a de que eu simplesmente não sei do que estou falando. Ora, como não sei o que falo, tenho que falar muito para poder expressar meu nada. Seria mais digno, seguindo o pensador, chegar e.... “ catapimba”, dizer assim, na lata. Afinal, eu sei do que estou falando e por isso não preciso dos arrodeios. Mas saber alguma coisa é algo muito monótono. Por isso eu - como asno de ouro que não como- prefiro aprender com as palavras. Assim: na medida em que vou digitalizando meu pensamento obscuro, as palavras vão apontando o caminho rumo ao nada incerto. Dessa forma, começo a ver que na verdade não penso coisa nenhuma à respeito de nada. As palavras simplesmente são palavras. Mas isso, isso meu amigo, dá à elas beleza e aroma inconfundíveis.

Seja como for, o delírio do verbo, com aposto ou não, é algo de muito particular na vida de um poeta ou de um prosador. Só eu posso experimentar a delícia de fazer todas essas macaquices com as letras. Vocês, ahhhhh.. vocês podem apenas passar pela minha cozinha de palavras e sentir o aroma do meu tempero. Se agradar, pule pra dentro! Quem sabe a gente pode tomar um caldo como bons companheiros de taverna.

10/12/07

Manifesto


Manifesto que tem com objetivo principal colocar por terra as últimas cidadelas da palavra... além disso, pretende subverter tudo aquilo que já fora dado como conhecido, lúcido e transparente e implodir categoricamente os limiares do isso e do aquilo. Sem definições ou metas pré-estabelecidas, agora vamos cantar a palavra-passo. A palavra que cintila em um simples olhar, ou então aquela que vira massa amorfa nos contos do fogo. Ancestralizar o verbo é a mais nobre missão dos cavaleiros walkirianos que buscam irromper os limites da razão-adequada para transpassar as inanimações de um tempo morto e vago. Aqui sim, a palavra vai vibrar no etér e criar Shivas e Vishnus. Dança da métrica infinita, onde esperamos o criador prostar-se diante dos objetos por ele mesmo moldados. Reverencialmente, cairão sob o solo frio todas as letras que andaram contaminando as definições da mente-tempo, da palavra-comércio. Nesse paraíso dantesco, ainda não navegado, o próprio Odisseu estará visitando o interior da terra em busca da sua pedra oculta, pedra de toque, pedra-palavra-pó que formou Ítaca e Circe. É lá também que a palavra sonho e a palavra navegação deixarão de ser barco e delírio. Ou vice-versa. O sonho será palpável, com cheiro das manhãs coloridas e o aroma inigualável daquilo que é presente na pá-lavra forte do agora. Nós, astronautas do espírito e navegantes do verbo já estamos incumbidos de fazer vingar a era em que os terremotos do Verbo sanarão os alicerces psicopatológicos de uma raça descrente. Palavra que constrói a Vida, Vida que cura as mazelas do Tempo, Tempo que não existe sendo não-ser.
Que todas as testemunhas do manifesto pelo verbo estejam atentas e comprometidas com a palavra do Caos. E assim encerra-se mais um começo: " erat verbum..."