23/04/07
A mulher que ofegava
Para ela a vida era um contínuo tormento e poucos eram os espasmos de claridade. Os dias cinzentos, os espaços duros, a falta de afeto, a solidão latente da meia-idade. Por isso, ela vivia pelos cantos falando sozinha, soltando gracejos e traçando planos paralelos em seu mundículo individual. Nada do que acontecia fora parecia lhe importar realmente. Ela tinha no olhar aquela razão perdida, aquele estar ou não estar, aquela espécie de angústia que é percebida facilmente nos membros da raça humana. Mas a mulher tinha um atributo especial que chamava muito a atenção: ela ofegava muito e com constância. Cada passo, cada sentar, erguer de braço, pensar, expressar-se.. era um bom motivo para aquela respiração - taquicardíaca e ansiosa - disparar. E o cansaço não era motivo para a sua ofegância aguda. Não. Seu corpo seboso, meio decomposto, aguado e amolecido, parecia que estava em um estágio avançado de decomposição. Apodrecimento ofegante. Ninguém podia saber ao certo de onde provinham os seus delírios decompostos, o seu respirar semi-fetal ou seus devaneios de monólogos abstratos. Porém, sabia-se que uma pequena coisa podia fazer tempestades em seus arados psíquicos. Uma flor, uma maçã apodrecida em meio à relva do seu jardim, um peixe assado, um papel esvoaçante que lhe adornasse o rosto. Isso para ela era a própria Vida. Nunca ninguém entenderá aquela mulher, de onde veio ou qual sua razão de existir. Muitos se irritaram com ela, muitos consideravam que ela não tinha nenhuma sanidade. O fato é que a simples presença dela, evocava o ocaso da vitalidade e o triunfo da morte e da sandice. Humana, demasiada humana.
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1 asnos comentaram:
Perfeita descrição....hahahha
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