
Quando as vacas estão magras, os bodes não tem onde pastar e, ainda por cima, venta mais dentro da sua carteira do que nos prados limpos de algum campo infinito, é hora de fazer o melhor programa econômico do mundo: alugar filmes. Logicamente, filmes comerciais, com vários atores famosos, farsantes de plantão ou chamarizes femininas de alto calibre estão descartados previamente. Vou falar do último que assisti e espero que isso sirva de indicação para alguém que fica perdido dentro das locadoras:
O Céu de Lisboa ( Win Wenders)
Eu sempre achei o Wenders um cara inteligente e sou fã incondicional do Madredeus. O Céu de Lisboa une esses dois elementos de forma fantástica. Primeiramente, Wenders mostra toda a sua sagacidade ao fazer um meta-filme - aqui citando Vertov- com questionamentos não entediantes sobre o próprio ato de VER. Em uma primeira abordagem, a imagem é considerada como memória, passado, coisa morta, tendo em vista que já é a reprodução de uma realidade objetiva filtrada sob os olhos de alguém que avaliou, julgou e restringiu. Dessa forma, o próprio ato de olhar é colocado em dúvida: será que realmente conseguimos ver alguma coisa? Essa cegueira indiscriminada só poderia ser resolvida com uma percepção limpa, plena, não construtiva.. como chegar à isso? Contrapondo essa visão da visão - paradoxal aliterante - o filme mostra a segunda perspectiva possível: o olhar, através de seu prisma sentimental, é capaz de captar momentos de raríssima beleza e transmitir uma idéia de forma primorosa, mesmo sendo - aparentemente - estanque. Toda essa discussão é levada por Wenders de maneira muito leve e graciosa. No plano estético, somos agraciados com coloridos magníficos, sons inesperados, closes não previstos e quadros singulares da terra portuguesa.
O Rio Tejo, monumento natural, é visto sob diversos ângulos e serve como pano de fundo para as canções do Madredeus e os incessantes refluxos do pensar e da memória tratados na história.
O enredo de Céu de Lisboa também é muito interessante. Porém, não vou entrar em detalhes para não estragar a surpresa de quem vai assistir. Agora a trilha sonora. Fados lindos do Madredeus iniciados por um encontro inesperado entre o editor de som, Winter, e o grupo português. A cena em que ele encontra os músicos é memorável e - na minha leiga apreciação -uma das mais lindas que já vi nas películas. A música do grupo, um misto de vigor, melancolia e altivez, mescla-se perfeitamente com tudo que está sendo mostrado e com o estado emocional, muito discreto, do protagonista.
Céu de Lisboa é um filme que vai te deixar com vontade de correr o mundo, experimentar novas cores, sabores diversos e, principalmente, pensar se: “para mudar a paisagem, basta mudar o que sentes” ?
Depois eu vou falar um pouco de Tarkoviski, Pasolini e Tinto Brass.
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