13/08/07

Arte da imagem


Quando as vacas estão magras, os bodes não tem onde pastar e, ainda por cima, venta mais dentro da sua carteira do que nos prados limpos de algum campo infinito, é hora de fazer o melhor programa econômico do mundo: alugar filmes. Logicamente, filmes comerciais, com vários atores famosos, farsantes de plantão ou chamarizes femininas de alto calibre estão descartados previamente. Vou falar do último que assisti e espero que isso sirva de indicação para alguém que fica perdido dentro das locadoras:


O Céu de Lisboa ( Win Wenders)

Eu sempre achei o Wenders um cara inteligente e sou fã incondicional do Madredeus. O Céu de Lisboa une esses dois elementos de forma fantástica. Primeiramente, Wenders mostra toda a sua sagacidade ao fazer um meta-filme - aqui citando Vertov- com questionamentos não entediantes sobre o próprio ato de VER. Em uma primeira abordagem, a imagem é considerada como memória, passado, coisa morta, tendo em vista que já é a reprodução de uma realidade objetiva filtrada sob os olhos de alguém que avaliou, julgou e restringiu. Dessa forma, o próprio ato de olhar é colocado em dúvida: será que realmente conseguimos ver alguma coisa? Essa cegueira indiscriminada só poderia ser resolvida com uma percepção limpa, plena, não construtiva.. como chegar à isso? Contrapondo essa visão da visão - paradoxal aliterante - o filme mostra a segunda perspectiva possível: o olhar, através de seu prisma sentimental, é capaz de captar momentos de raríssima beleza e transmitir uma idéia de forma primorosa, mesmo sendo - aparentemente - estanque. Toda essa discussão é levada por Wenders de maneira muito leve e graciosa. No plano estético, somos agraciados com coloridos magníficos, sons inesperados, closes não previstos e quadros singulares da terra portuguesa.
O Rio Tejo, monumento natural, é visto sob diversos ângulos e serve como pano de fundo para as canções do Madredeus e os incessantes refluxos do pensar e da memória tratados na história.
O enredo de Céu de Lisboa também é muito interessante. Porém, não vou entrar em detalhes para não estragar a surpresa de quem vai assistir. Agora a trilha sonora. Fados lindos do Madredeus iniciados por um encontro inesperado entre o editor de som, Winter, e o grupo português. A cena em que ele encontra os músicos é memorável e - na minha leiga apreciação -uma das mais lindas que já vi nas películas. A música do grupo, um misto de vigor, melancolia e altivez, mescla-se perfeitamente com tudo que está sendo mostrado e com o estado emocional, muito discreto, do protagonista.

Céu de Lisboa é um filme que vai te deixar com vontade de correr o mundo, experimentar novas cores, sabores diversos e, principalmente, pensar se: “para mudar a paisagem, basta mudar o que sentes” ?


Depois eu vou falar um pouco de Tarkoviski, Pasolini e Tinto Brass.

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