26/06/07

Desafio


Interrompo um pouco a série dos pecados capitais para mostrar um pouco de outro tudo. Quando disse - alguns dias atrás - que um dos meus mestres da rima era Pinto do Monteiro, não estava brincando. Além dele, devo reverência à Oliveira de Panelas, João Quindigues, Zé da Luz, Patativa, Sebastião Marinho, Andorinha, Zé Francisco, Passarinho do Norte, Chico Antônio, Leandro Gomes de Barros e uma lista que não tem fim. Vou postar aqui um desafio de repente-cordel que fiz com um amigo meu - grande poeta popular - via MSN. O mundo atual tem essas coisas paradoxais: motes da Natureza cantados pelas virtualidades mudernosas.


Ah! Quem quiser continuar o desafio no comentário é muito bem-vindo! É só pegar o esquema de rimas já existente, ler em voz alta pra entender o ritmo e ser feliz.



Suriel:

O meu verso é água pura
Correndo pelo lajedo
É semente de arvoredo
Brotando na terra dura
É fruta doce madura
No pomar da poesia
É o sopro da ventania
Varrendo a terra escarpada
É noite toda estrelada
E o Sol no raiar do dia


Sugamosto:

Eu tenho como meu guia
o velho Pinto Monteiro
trovador e seresteiro
que cantava com alegria
em seus versos ele dizia
da lida do sertanejo
e trovava com benfazejo
sobre o mote da Natureza
a mãe de toda beleza
do céu, da luz do trovejo.

Suriel:

Quando canto eu logo vejo
Uma estrela transcendente
Com seu lume incandescente
Me inspirando num lampejo
Um harmônico cortejo
De versos vem na seqüência
Que num ato de vidência
Invadem meu pensamento
Provocando encantamento
Em toda minha audiência

Sugamosto:

Eu só presto obediência
ao mestre da inspiração
aquele que dá canção
sonho, talento,inocência.
É preciso ter paciência
pra seguir o rumo da rima
trabalhar a matéria prima
com engenho força e arte
transformando Vênus em Marte
e a lama em flor celestina.

Suriel:

Nesta vida eu tenho a sina
De cantar aos quatro ventos
A riqueza e os talentos
Da cultura nordestina
Que é fonte cristalina
hidratando este país
sertanejo nunca diz
que não teve boa sorte
enquanto não vem a morte
ele canta bem feliz


Sugamosto:

Meu canto também é raiz
que infunde vida no mundo
toada do alto profundo
morada da Musa nutriz.
se o homem não é feliz
seu canto é tumba caiada
por fora bela fachada
por dentro escuridão!
A rima é luz, é clarão
O sol de uma nova alvorada.

Suriel:

É a presença sagrada
Do verbo onipresente
é vida pura e latente
no canto da passarada
é estrela da madrugada
que brilha também de dia
é a mais pura energia
que vibra neste universo
sintetizada no verso
dos mestres da cantoria

Sugamosto:

É estrela, luz, ousadia
infinito mantra do espaço
é lei, som e compasso
na vida de quem a cria.
Tudo isso é a poesia
o ciclo que nunca termina
a fonte adamantina
onde bebem os vates sagrados
cantadores abençoados
da natureza divina.

22/06/07

Luxúria




Segundo texto da série dos 7 pecados. Já vi que a coisa tá se dando pela " afinidade eletiva ".
Vamos lá! To the Lust Kingdom!

LUXÚRIA

Ahhhh!
Já está bem recordado
Daquele par de peitos pomposos
Com ímpeto de serem tragados?
Te gusta aquela boca carnuda
Aqueles pares de coxa
Que deixaram tua alma desnuda?
Conversa, malícia, fascínio
Em teu sacro-santo declínio
O pecado põe-se à brotar.
O delta da vulva molhada
- mandala, mistério e magia -
Espera tua língua ferina
Nas camas da nuvem do dia.
Encantos vespertinos da alma
e o teu coração tortuoso
já mais se assenta e acalma:
labirinto do olhar sinuoso.
Ahhhhh, que gozo faustoso e jocoso
Molhar-se e banhar-se em corpos
Lambuzar, denegrir, esvair
nesse moinho tão tonto
onde o ser se apura no apronto
de morrer na terra vazia.
Paixão, tesão, fantasia
Quando o Rei se torna animal
escravo do corpo carnal
que em si aflora e declama
o pecado original.
Sede mortal e saudade:
“ Aqui jaz o Amor: epitáfio nupcial”



Ps: Logicamente que o " já mais " é intencional.

19/06/07

Gula


Minha namorada está participando da produção de um espetáculo de Dança que irá versar sobre os 7 pecados capitais. Por isso, pediu para que eu fizesse alguns textos - ou poemas pequenos - que falassem sobre o tema. Vou postar aqui o resultado de minha produção. Começo pelo pecado da Gula por uma questão de familiaridade, proximidade e até um certo grau de afeto " pato-ilógico" com o mesmo.



GULA

Na pujança do prato fundo
O homem senta a pança e alarga o lastro.
Fita a presa com fugaz predatorismo
Fecha o lombo, forra o casco, solta um grito!
Das amarras que prendiam o gemido
Com voracidade, velocidade e selvageria
O homem amarra o homem na glote
E expele, vomita, o vão deglutido.
Essa fome, esse temor, essa angústia do prato mudo
Esse afã, esse terror, essa ganância de acabar
Alimentar-se e esganar-se
na mesa: ao se fartar.
Desde que Adão e Eva comeram a perdição
O homem está fadado ao infinito contado
Da eterna deglutição.
É escravo eterno, do seu instinto- inferno
Comer, descomer, e ficar!
Com sede, só-saciada
na mesa, ao se fartar.
Na pujança do prato fundo
O homem assenta a ânsia:
Abraço da pança, abraço do Mundo.

13/06/07

alienação


Quem sou eu, hoje, só pode ser definível por aquilo que fui e que outros foram antes de mim. Porém, principalmente, onde esteve vagando minha mente metafórica e metamorfoseada nesses anos do acordar. É. Eu já fui lá uma projeto de figurinha político-filosófica. Realmente me interessava nos meandros sociais, nos estratos dos extratos e os status QUO, democracia, demagogia, Platão. Marx nunca foi minha praia. Aliás, presto à este senhor barbuda e fedido a mesma idolatria que merece Papai Noel. Muito me interessou, e foi bela indicação, ler " Os Intelectuais " de Paulo Johnson livro que se propõe a fazer um "Exame Crítico das Credenciais Morais e da Capacidade de Julgamento com que os Intelectuais se Permitem dar Conselhos a Humanidade. " Se todos lessem esse livro a Humanidade seria anos-luz assaz mais sagaz e perderíamos 90% das baboseiras sociais. Pois bem. Eu dizia do meu pseudo-engajamento juvenil e agora digo que sou totalmente alienado do Mundo. Não assisto televisão, raramente leio jornal, revista jamais, internet notícias vez em quando. Não sei quem são as celebridades do momento, não sei quais são os momentos da celebridades, não sei quem está em crise, não sei se vivemos num governo do Demo, num reinado às avessas, num antro anárquico colonial, autarquia, apatia ou desalento. Cá, ando mais preocupado com a minha própria lógica de saber como anda esse meu Sertão interior. Muitos cactos estão sendo colhidos, alguns bodes trucidados, água tem sido coisa rara e o poçinho dos meus jardins anda pra lá de seco. É mais ou menos assim. Fico com a definição roseana: " O diabo na rua, no meio do redemunho ". E nada mais.

05/06/07

Pinto do Monteiro



Uma pequena amostra da inteligência e sagacidade dos grandes mestres do Repente e do Cordel. Posso considerar que homens como Pinto do Monteiro sempre me deram " cursos à distância " na faculdade da Vida e do Verso.



Pinto de Monteiro foi convidado para uma refeição numa propriedade do município de Monteiro, onde foi servido, entre outras coisas, queijo fabricado na própria fazenda. À noite, numa cantoria com Joaquim Vitorino, ficou sabendo de certas particularidades que aconteciam durante a fabricação do queijo que ele havia consumido tão prazerosamente. E ele assim externou sua decepção:

Há vários dias que ando,
Com o satanás na corcunda:
Pois, hoje, almocei na casa
Duma negra tão imunda,
Que a prensa de espremer queijo
Era as bochechas da bunda!

No Clube Português, em Recife, Pinto de Monteiro e Lourival Batista faziam uma saudação ao Cônsul de Portugal, um fidalgo de nome Felipe, que estava acompanhado de sua esposa, uma senhora de origem francesa, de nome Boucier. Foi quando Pinto veio com essa:

Colega, vamos cantar,
Para um casal de Lisboa.
Felipe é o nome dele,
Boucier sua patroa.
Dela não sei o destino,
Mas o seu nome tira um fino
Numa coisa muito boa.


Ou quando foi desafiado por um desavisado:

Desafiante - Para um pinto é bastante
um banho de água quente
um gavião na cabeça
uma raposa na frente
um maracajá atrás
não há pinto que agüente


Pinto - Da raposa eu tiro o couro
de mim não se aproxima
o maracajá se esconde
o gavião desanima
do dono faço poleiro
durmo, canto e choco em cima.