24/07/07

Crise nas terras infinitas


Ocorrem -pelo menos comigo - momentos da vida onde tudo parece estar devidamente estabilizado. Aquele gato que está sempre na mesma posição quando você chega em casa, aquele cobrador de ônibus que te dá um alegre: " bom dia senhor" e tenta puxar um papo, as relações com os mais próximos que ficam cada vez mais normais. Nessas horas, eu agradeceria ao Eterno se existisse algum tipo de alerta, sinal, aviso, despertador. É, a normalidade e a calma são coisas perigosas. Primeiro, porque o homem, você sabe, acostuma fácil com tudo. A mobilidade quase sempre é tratada como a estranha da casa e nosso caráter cigano e mutante é camuflado sob uma grossa camada de personalidade conservadora. Reparo também, que todos procuram um lugar para firmar o pé, plantar raiz e erguer as estátuas de si mesmo.

Porém, a vida não costuma ter muitas preocupações com os nossos planos individuais e tão menos com as nossas vontades. Segue varrendo, destituindo a solidez, desmoronando até as mais concretas estruturas e desnudando a realidade da impermanência. Nessas horas, o outrora confiante Si Mesmo olha no espelho e enxerga um grande ponto de interrogação. O primeiro ímpeto é o desespero não é? Correr pra algum lugar, procurar nas gavetas, embaixo da cama, no sotão... onde estou eu afinal ? Aquele velho eu, tão simpático, caridoso e confiante? Quando enfim vamos nos dando conta de que "ELE" já não existe mais, começa o assombro maravilhoso da existência. Nesse vácuo sem fim e sem começo das transformações, o homem vai cerzindo sua natureza camaleônica e transpassando o labirinto do desconhecer. O mais incrível é poder observar como tudo isso se opera. Como uma coisa, que parece tão perene, se transforma em nada da noite pro dia? Como algum nada, surgido do nada, vindo do nada, volta pro lugar nenhum sendo sempre presença eterna? Espelho, espelho meu, quem é o autor- sublime mestre- do fio que me teceu? Agora, sem respostas. Não quero me tornar mais um matador de koans.
Uma poesia de Fernando Pessoa. Esse cara me entende. E vice-versa.


Não sei quantas almas tenho


Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.

16/07/07

Concretismo Egóico


11/07/07

Carta a um jovem poeta


Como ando escrevendo só textos teóricos - que pouco interessam para a maioria - decidi postar hoje o poema de uma grande amiga. Esses versos exprimem muito bem algumas idéias interessantes sobre a relação do poeta com a sua musa e eu fiquei muito alegre quando recebi. Espero que gostem também da habilidade que ela demonstra com a pá-lavra.


Carta a um jovem poeta

Meu amigo,


Assim como tudo que possui
A intrépida marca dos grandes amores,
Teus versos causam quase um ultraje.

Atavias as letras da existência!
Movimento retrógrado à tempos imemoriais,
Artéria rompida. Tempos estancados,
Avassalados à pele. Pensamento.

Meu jovem poeta,
Instituis para ti caracteres próprios,
Que te fazem escapar
Do ritmo ordinário do efeito das causas.
Estabeleces um com-passo outro,
Marca um tanto quanto pitagórica.
Geometria plena.

Laborioso talhar de hábil cinzel,
Intérprete cioso de tua favorável lenda,
Crias uma Ísis secular, terrestre divina - menina mulher.
Hás esculpido a insígnia distintiva de teu uni-verso/amor

Revives no silêncio mudo das letras, O espírito dos grandes mistérios.
Elêusis re-velados. Abençoada inspiração.
Cerimônia capaz de nos tornar animais sagrados
Debruçados nas soleiras do Templo,
Sublevados pelo inefável!

Quem lê teus versos,
Quase vê,
Sob o brilho das estrelas, o mar encapelar-se
Diante dos pés, de tão Cândida criatura.

Ó filho da palavra!
No te olvides: Es siempre paradójica,
La suerte de los poetas!
Que o Deus tutelar da escrita,
Esteja sempre contigo!
Ruth Pacheco

03/07/07

IRA


IRA!
Inflama a pasta quente do suor
Em labaredas, larvas, línguas, salamandras
destroem os seus palácios, no horror que se constrói
Limbo, lodo: teu castelo irascível.
Palpitam as fagulhas da faísca putrefata
E teus olhos - já em brasa -
Dilaceram e devoram amargo-rim.
Não vê a bile negra que consome
As tuas tripas?
A língua do dragão que divide e descama?
Pepita por pepita vai jorrando esse fogo,
Até que um vulcão se precipita em teu ser
e explode no âmago da amarga abertura:
deformando-se na lama do derrame.
Que fúria, que furor, que força fraudulenta
Te levam a querer de ti o destruir?
Que ânsia, que apelo, que ímpeto cardíaco
Que aziago, que males, que morte e que fim?
Tua ira incontrolável destruiu o meu poema
Destruindo meu poema, destruiu também a mim.