
Ocorrem -pelo menos comigo - momentos da vida onde tudo parece estar devidamente estabilizado. Aquele gato que está sempre na mesma posição quando você chega em casa, aquele cobrador de ônibus que te dá um alegre: " bom dia senhor" e tenta puxar um papo, as relações com os mais próximos que ficam cada vez mais normais. Nessas horas, eu agradeceria ao Eterno se existisse algum tipo de alerta, sinal, aviso, despertador. É, a normalidade e a calma são coisas perigosas. Primeiro, porque o homem, você sabe, acostuma fácil com tudo. A mobilidade quase sempre é tratada como a estranha da casa e nosso caráter cigano e mutante é camuflado sob uma grossa camada de personalidade conservadora. Reparo também, que todos procuram um lugar para firmar o pé, plantar raiz e erguer as estátuas de si mesmo.
Porém, a vida não costuma ter muitas preocupações com os nossos planos individuais e tão menos com as nossas vontades. Segue varrendo, destituindo a solidez, desmoronando até as mais concretas estruturas e desnudando a realidade da impermanência. Nessas horas, o outrora confiante Si Mesmo olha no espelho e enxerga um grande ponto de interrogação. O primeiro ímpeto é o desespero não é? Correr pra algum lugar, procurar nas gavetas, embaixo da cama, no sotão... onde estou eu afinal ? Aquele velho eu, tão simpático, caridoso e confiante? Quando enfim vamos nos dando conta de que "ELE" já não existe mais, começa o assombro maravilhoso da existência. Nesse vácuo sem fim e sem começo das transformações, o homem vai cerzindo sua natureza camaleônica e transpassando o labirinto do desconhecer. O mais incrível é poder observar como tudo isso se opera. Como uma coisa, que parece tão perene, se transforma em nada da noite pro dia? Como algum nada, surgido do nada, vindo do nada, volta pro lugar nenhum sendo sempre presença eterna? Espelho, espelho meu, quem é o autor- sublime mestre- do fio que me teceu? Agora, sem respostas. Não quero me tornar mais um matador de koans.
Uma poesia de Fernando Pessoa. Esse cara me entende. E vice-versa.
Não sei quantas almas tenho
Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que sogue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu.


