26/09/07

Giordano Bruno


“Se eu, ilustríssimo Cavaleiro, manejasse um arado, apascentasse um rebanho, cultivasse uma horta, remendasse uma veste, ninguém daria atenção, poucos me observariam, raras pessoas me censurariam e eu poderia facilmente agradar a todos. Mas por eu ser delineador do campo da natureza, por estar preocupado com o alimento da alma, interessado pela cultura do espírito e dedicado à atividade do intelecto, eis que os visados me ameaçam, os observadores me assaltam, os atingidos me mordem, os desmascarados me devoram. E, não é só um, não são poucos, são muitos, são quase todos. Se quiserdes saber porque isso acontece, digo-vos é que tudo me desagrada, detesto o vulgo, a multidão não me contenta. Somente uma coisa me fascina: aquela virtude da qual me sinto livre na sujeição, contente no sofrimento, rico na indigência e vivo na morte. Aquela em virtude da qual não invejo os que são servo na liberdade, sofrem no prazer, são pobres nas riquezas e mortos em vida, porque trazem no próprio corpo os grilhões que os prendem, no espírito o inferno que os oprime, na alma o erro que os debilita, na mente o letargo que os mata.Não há, por isso, magnanimidade que os liberte nem longanimidade que os eleve, nem esplendor que os abrilhante, nem ciência que os avive.Daí sucede que não arredo o pé do árduo caminho, como se estivesse cansado. Nem por indolência, cruzo os braços diante da obra que se me apresenta. Nem, qual desesperado, volto as costas ao inimigo que se me opõe. Nem, como desnorteado desvio os olhos do divino objeto. Que sempre me seja propício o meu Deus. Oxalá os astros me tratem tal como a semente o faz ao campo e o campo à semente, de forma que apareça ao mundo algum fruto útil e glorioso do meu trabalho, por despertar o espírito e abrir o sentimento àqueles que estão privados de luz.”


Giordano Bruno

04/09/07

Anima Mítica


Anima Mítica

"Não liguemos o saber à alma. Incorporemo-lo a ela." (Michel de Montaigne)


Heráclito já retumbava aos quatro ventos que “ a morada do homem é o extraordinário”. Nas infindas celebrações do mundo antigo, os seres buscavam contacto permanente e fidedigno com as forças além-mundanas que operavam nas nervuras do sentido e do real. Mas onde buscar a fonte da tessitura imaginária? Onde procurar a gruta oculta que alimentava o mundo e o supra-mundo?
Devido às suas naturezas, os homens do passado evitaram as respostas objetivas, substituindo-as por flechas enigmáticas nos campos significantes: os mitos.
Os mitos apontavam as mais altas realidades, aspirações e anseios dos povos ancestrais. Através de sua rica função fabuladora, eles forjavam um mundo, já existente em latência potencial, pleno de vida e harmonia. Porém, dentre todos os multi-mitos, unívocos em sua essência não simplista, destacam-se aqueles que fazem menções, ainda que muito veladas, à alma humana.
Essa “Anima Mítica” promoveu uma verdadeira migração do pensamento antigo para as mais altas esferas metafísicas. Lá, onde ainda residem as formas imemoriais, os pensadores encontraram o tempo forte onde o mito anímico é re-inventado continuamente nas percepções de um porvir que nunca chegará. É conhecida por todos, ou pelo menos deveria ser, a doutrina platônica da transmigração das almas que transmite revelações sintéticas sobre o cerne da alma humana e postula o fabuloso: “aprender é recordar.” Onde estará perambulando essa verdade imorredoura do mito da Alma? Como foi que os povos antigos chegaram à conhecer de perto essa essência do homem? Só poderemos almejar chegar perto de tais idéias se nos reportarmos aos mitos antigos e, através de uma interpretação sensível, chegarmos à penetrar “com a alma na alma”.
Também devemos recordar, sempre que for possível, como as concepções neoplatônicas e gnósticas – receptoras da tradição ocidental antiga – influenciaram nosso entendimento sobre a “anima” vital. Aqui, o Mito de Sophia é altamente revelador e pode trazer claridade aos anseios pulsantes do homem de desejo.
Jornada da Alma, Jornada do Mito, Jornada do Homem.