25/10/07

A arte da existência


A arte da existência: subversão e celebração.

A arte da existência: subversão e celebração.

Não é por um simples destempero emocional que grande parte da humanidade, digo ocidental, tem em seu âmago a necessidade de buscar formas, maneiras e gestos para celebrar a existência. Esse afã incontrolável possivelmente deu origem à grande indústria de eventos que hoje move a máquina do entretenimento banal e faz com que a diversão seja, ela também, um negócio altamente lucrativo.
Pensar onde estão as raízes dessa necessidade celebrante, é questionar acerca do próprio sentido que tomou a existência do homem ocidental. A vida do ser humano moderno no universo do Ocidente, não precisamos ter um intelecto superior para constatar isso, é nauseabunda, claudicante, desprovida de sentido e inerte. Constatamos isso ao observar a frieza dos semblantes, a necessidade desesperada em encontrar fórmulas da felicidade, saídas, religiões, livros, o abatimento constante sob o qual vive o ocidental, torturado por um sistema de vida, e aqui não me refiro simplesmente ao sistema social, que o oprime e massacra. Nossas peles perderam a tonalidade viva, não suportamos mais receber a luz do Sol, as fases da Lua não nos importam, nosso calendário é desajustado, poucos acompanham a passagem das estações, a água, o fogo, o ar e a terra não passam, para nós, de meras palavras ou de coisas que conhecemos pela televisão. Enfim, poderíamos ficar aqui enumerando, diagnosticando para ser mais preciso, uma série de fatores que dão a prova viva de nossa falta de contato com o sangue, os nervos e a vida.
Alguns homens de gênio forte - e ímpeto quase incontrolável - apareceram recentemente na história ocidental visando alertar o homem sobre a sua narcose cataléptica. Pensadores como Nietzsche, Artaud e Krishnamurti e artistas como Van Gogh e Dali, não fizeram nada mais do que dar choques em uma humanidade sonolenta e preguiçosa. Invariavelmente, foram taxados de loucos, subversivos, cruéis e impiedosos. Não é de estranhar-se. Quando toda a massa ignara tomba ante suas próprias invenções inúteis, aqueles que dão o grito de alerta para o “sentido da terra” só podem cair no esquecimento e na miséria. Quando muito, são transformados em ícones para as novas gerações que irão armazenar seus pensamentos em fórmulas repetidas, assassinando a vida mais uma vez.
As religiões organizadas, por sua vez, continuam a produzir rupturas, cisões e desencontros entre os homens. Permanecem firmes em sua postura de separar o joio do trigo, em preparar os eleitos, em querer levar sua própria organização morta à ser a única, a incontestável, a suprema. O fundamentalismo, as vezes velado, produzido por essas organizações tem alimentado a semente da maldade humana e criado perversões e guerras de todas as ordens. Os sacerdotes e altos cardeais continuam à pregar verdades falecidas, a lustrar, polir e pintar suas próprias tumbas caídas visando erigir, ou sustentar, o império da dominação e do poder. Não bastassem todos esses males latentes, as religiões ainda tem produzido rupturas muito mais nefastas... apartam o pensamento da vida, o saber do querer, o espírito da matéria, a arte do conhecimento, a tragédia da felicidade. Não sabem, ou pelo menos não lhes interessa falar sobre isso, que os elos da existência são inseparáveis. Pensar, sentir, pulsar, desejar, amar e odiar estão contidos na mesma balança do Cosmos em movimento. Uma felicidade humana perfeita é sempre sucedida por uma tragédia de igual magnitude. Todavia, ao pensar assim, não estamos nos aproximando de um fatalismo niilista. É exatamente nesse momento, onde se encontram em choque as forças da noite e do dia, as energias ctônicas e solares, as trevas e a luz, o dionisíaco e o apolíneo, que está o grande arcano velado da existência. Nessa árvore do Bem e do Mal, a celebração de um Universo ainda menino aguarda os filhos da seara do porvir. Sendo assim, estar em Celebração com a Vida verdadeira já não é mais uma questão decorativa, estética, divertida ou adicional. Para nós já é um imperativo categórico, algo necessário para que possamos ressurgir das cinzas de nossa própria peste medíocre e entremos em conexão com a existência suprema que habita em nosso próprio interior. Para isso, porém, teremos que empreender dolorosa jornada até a cripta mais profunda até que ressurja novamente o Sol Invicto.