24/04/09

Conselhos de Pound


Em um relance rápido, valei-me patrono Mercurial, parece que a inabilidade com as palavras é dos males o mais perdoável para aqueles que escrevem. Constatação hedionda. Se um músico desafinar ou uma bailarina tombar abruptamente... bem, todo mundo percebe. No entanto, os poetas caducos que estão repetindo os jargões, dissimulando a mediocridade com termos belos - "vida", "amar tanto assim", "segundo sol" - esses poetas, dizia eu, não são condenados com tanto rigor. Talvez porque as letras comportem algo de tão subjetivo - e seu caráter essencialmente simbólico dá prova disso - que pega até mal dizer diretamente: " você escreve mal pra cacete!" sem ter que ouvir a lamúria melodramática e pseudo-humanística de que aquela é a expressão do que brota do seu " interior" 1. Na poesia todo mundo enfia - verbo bem adequado - o dedo e mexe pra lá e pra cá sem se dar ao luxo essencial de transitar no universo literário e revisitar os mestres para retificar o verbo de suas excrescências. Ezra Pound - grande ouvires das palavras- dá conselhos muito úteis:

“ - Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como "dim lands of peace" (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto.Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado. Receie as abstrações.

- Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã.


- Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano.


- Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la.
Não permita que a palavra “influência” signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas “cinzentas como pombas”, ou então “lívidas como pérolas”, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum”.

1- É o que me dá segurança para inferir que "interior" é uma paisagem bucólica - ainda que interna - totalmente insalubre, sem iluminação, saneamento básico e de dificil acesso.

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